Dever e Obrigação Filosofia


 Inicialmente, há uma profunda diferença entre obedecer por obrigação e obedecer por dever. Nos primeiros estágios da infância, a criança ainda não entende a razão de ser das coisas; por isso seu estágio moral é denominado de heteronomia, ou seja a lei moral provém de uma pessoa externa, de uma autoridade, do pai, da mãe, do professor, etc. Progressivamente, com o despertar da consciência reflexiva, a criança passa a entender a razão de ser de certos limites e os acolhe como fundamentais para a vida em sociedade. A partir dessa nova situação, começa a despertar o estágio de autonomia, no qual a lei não mais vista como imposição externa, mas recebe a adesão pessoal, com progressiva convicção e consciência de que assim é melhor, é o certo e o justo.

Assim, o dever brota da consciência reflexiva, enquanto a obrigação é uma expressão de uma obediência exterior, de uma submissão. A consciência do dever sinaliza para uma nova forma de pensar, na qual o sentimento de pertença ao corpo social ficou mais forte do que o impulso individualista, contudo, o conflito pessoal muitas vezes continua muito forte entre a vontade e a consciência. Embora haja consciência do certo a ser feito, a impulsividade humana costuma ir a condição contrária, pois o princípio do prazer imediato costuma ser a primeira lei da natureza.

Esse dever é objeto de estudo, de ensino de aprendizagem, o dever dever ser ensinado, pois naturalmente, na condição de animais, nós não temos outra necessidade a não ser a de buscarmos a própria sobrevivência, se deixarmos as pessoas entregues a si mesmas, sem o ensino do dever, a vida social não seria possível.

Com isso, nossa reflexão amadurece para a compreensão do dever como uma necessidade autoimposta, em fidelidade a princípios e valores. Por isso, o dever é expressão de verdadeira liberdade, pois nesse nível a pessoa pertence a si mesma, com força capaz de renunciar a satisfação de inclinações naturais.

Portando, na consciência do dever já não é o olhar vigilante ou fiscalizador do outro que é motivador da ação pessoal, mas a ética da responsabilidade, da solidariedade e do compromisso com a qualidade de vida.


Livro; Por uma inteligência da complexidade

Celito Meier

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